
Eu ando muito negativa. Hummm….. deixa eu recomeçar isso daqui. Volta o disco, rewind a fita. Eu andava muito negativa!! Coloco o verbo no passado que é pra sacramentar dentro do meu ser, que este estilo “Velha Rabugenta” já se foi.
Eu cheguei a essa conclusão porque o MUNDO estava grosseiro comigo. Se todas as pessoas desse planeta me tratavam que nem cão pulguento, isso significa que algo estava errado. Até de freirinha da igreja, que eu fui fazer doação, recebi um sonoro: “Aqui a gente não recebe roupa velha não, vai arrumar outro lugar”.
Comecei a olhar pra mim mesma na tentativa de encontrar a origem da produção mundial de falta de educação. E ai que comecei a me achar insportavelmente chata. A partir do momento que você se auto considera um saco, é porque o nível de perturbação já está alto. Óbvio que de tão pentelha, algumas coisas se tornam engraçadas para serem contadas posteriormente, mas nem graça eu tava mais vendo nas minhas apurrinhações ou pseudo “eterna” falta de sorte.
Quando você vira uma pessoa cricri, nenhum DETALHE passa desapercebido e os outros (os seres que te rodeiam) viram mais imperfeitos ainda do que já são.
Acho que eu estava enxergando com uma lente de aumento, nos outros os meus defeitos mais sórdidos. Digamos que é difícil pra caramba se ver no espelho com a ajuda graciosa e modesta do telescópio Hubble. Uma simples espinha se torna algo grandioso e desesperador como um tiranossauro rex preso em gaiola de passarinho. O negócio é respirar fundo 20 vezes e deixar fluir, se aceitar ou aceitar de verdade a característica do outro, que também está presente em mim.
O verbo principal é: ACEITAR. Lamentar, questionar demais e elocubrar não costumam dar muito certo.
Eu consigo me mutar, mudar. Não que seja a coisa mais fácil e rápida desse mundo. O outro? Aí deixa com o outro, não é mesmo? Cabe ao outro mudar, se transforma, metamorfosear e outros derivados. Quem sou eu pra tentar transformar o ser do lado em algo mais palatável? Deixa ele ser chato, estranho, esquisito, ativo, sem energia, mandão ou não, ali no canto dele. O que importa é que EU me aceite e goste daquilo que acontece e existe dentro de mim. Assim, pelo menos fica mais fácil encarar as tranqueiras que os outros nos oferecem.
Eu que não vou mais ganhar rugas ou fios branco porque o fulano é assim ou assado, cozido ou ensopado ou porque ele me disse algo em um tom tal e deveria ter dito de outra maneira. A minha mania de me apegar a detalhes é algo chatinho que só.
Depois de pensar nessas coisas resolvi agradecer tudo que chega até a mim e o que não chega também. SIM! Agradecer. Agradecer até o INAGRADECÍVEL. ( E essa palavra existe?) Agradecer pelo Não redondo e gigantesco que por ventura chegue. Aliás, vários deles já me nocautearam com força. Agradecer pela chefe perua, mente vazia que ri como se fosse uma gralha em trabalho de parto, agradecer pelo chefe mandão que grita como se fossemos surdos, pelos arianos que transitam no meu dia-a-dia, pelos aquarianos inamoráveis que namorei…… Agradecer pela gastrite crônica que choveu na minha horta em 2008 e que até agora ainda cisma em me dar uns Hellos ordinários….
Agradecer a quem puxou meu tapete. Enfim, tenho que ser grata. Afinal, sem essas coisas ou pessoas, eu não posso enxergar outros caminhos e crescer. Acho que os orientais pensam mais dessa forma mais “agradecista” também, não?
Como diria uma senhora simples que conheci: “Temos que ser agradicidos de coração, cólhega. Quem é agradicido é agraciado. E o outro é o reflécu (reflexo) de nós mermuu.”
A dona senhora em questão resumiu tudo que precisamos para um conviver menos pesado com os outros.
Confesso que com galerinha de áries fica difícil de me sentir “agradicida, colhéga” pela presença imponente deles. A missão fica mais complicada, mas nada que seja impossível.
Chega de tira-gosto, vamos pro prato principal. Nas últimas duas semanas comecei a sorrir mais e a agradecer. Lépida, fagueira e tentando chutar pra longe os pensamentos maléficos e sorrateiros que todo ser humano tem…
- Oi, Seu Motorista, Oi Seu trocador de ônibus, Bom Diaaaaaaa!
E (depois do homem dar o troco, um singelo e feliz): Obrigadaaaaaaaaaaaa!
Parecia tão forçado de início….mas depois ficou natural…veio mais do coração…E eu percebi que as pessoas tavam mais leves comigo. Afinal, semelhante atrai semelhante.
Sorriso e agradecimento pro síndico mal amado do prédio que me proibiu de estacionar minha bike na garagem:
- Poxaaaaaaaaaaaaaaaaa, minha bike não pode ficar mais aqui? Nunca mais? Nem de tarde? Nem de manhã? Nem se eu prometer não deixar ela aqui de noite??
- N-Ã-O- ôôôOOOOOO!!!
- Mas que penaaaaaaa!!! Muita gente vai ficar triste e vai gastar mais dinheiro com transporte. Mas tudo bem. OBRIGADAAAAAAA por me dar essa informação!! OBRIGADA por se preocupar em me avisar de antemão. Vou pensar em outra solução. Bom Dia.
Se fosse há algumas semanas atrás e eu no meu crescente azedume teria dito algo bem dramático tipo: “COMO ASSIM MINHA BICICLETA NÃO PODE ficar aqui? E aquelas outras 300 mil estacionadas ali? O senhor tá afim de implicar comigo, não é? Já avisou a todas as 585 mil bicicletas trancadas a cadeado que elas devem dar o fora imediatamente??? Não estou vendo nenhuma se mexer, e nem ninguém vir retirá-las e a minha também não entendeu o recado. O senhor vai me dar VALE TRANSPORTE ou AUMENTAR meu salário pra compensar o dinheiro que eu economizo? O senhor vai pagar minha ACADEMIA de ginástica caso eu vire uma POIA GORDA sedentária? O senhor vai acabar com a minha vida sáudável e a de tantas outras pessoas !!!!!!!! Isso é um absurdo!!!! E tanta gente aqui do prédio também se exasperará porque encontrou numa simples bicicleta a sua forma de enfrentar tantas dificuldades!!!!
Já notei que quanto mais azeda eu fico, mais hiperbólicas minhas respostas se tornam.
Em todo caso, a resposta acima não aconteceu e só foi um hipótese do que poderia ter vindo, caso eu continuasse estressada, negativa e conjugando tudo na primeira pessoa. Enfim, os dias seguiram com uma pessoa disposta a adquirir um dia-a-dia mais ameno e fresco. Sorriso pra lá e pra cá, coluna mais ereta e uma nova maneira de olhar as coisas. No início tava difícil sair agradecendo, principalmente os percalços rotineiros. Tudo bem que eu já tive fases BEM mais prósperas (do que a de agora), por isso, a tendência a me achar ‘aquela’ que não tem sorte em hipótese alguma ou a imbecil que pegam pra Cristo, ou a ovelha negra da família várias vezes batem à minha porta. A minha função nesses tempos de garoa e céu nublado é botar pra correr as besteirolas que fazem o dia render menos.
Tudo indo MUITO bem…. Os agradecimentos indo de vento em popa até que eu cheguei num ponto…digamos…tosco.
Cena 1: “Procurando o chá verde”
Procura daqui, dali…..Onde está meu chá verde? Chá verde, cadê você? Oiê??? Até que abri o armário, vi a caixa com os sachezinhos escondido atrás do sucrilhos e disse altão: OBRIGADA!
- Falou comigo? (disse minha mãe)
- Não, falei com o ……… falei com o …..com o sucrilhos???? Com o armário? Sei lá com quem eu falei.
- Ah tá! Pensou alto então, né minha filha?
- Deve ser!!
Cena 2: Preparando um arroz (acontecimento quase histórico)
Provei o arroz, vi que o bichinho não tava aguado e estava com o sal no ponto exato. Uma delícia, por sinal, dava pra comer até puro (digo, com azeite), até que abri a BOCA e disse alto pra diacho: OBRIGADA!!!
- Obrigada pelo o que, minha filha?
- Ih pai, esquece. É que tava com medo do arroz sair nojento, que nem aquele macarrão que eu fiz que ficou com gosto de plástico. E acabei dizendo obrigada pro arroz, que resolveu colaborar.
- Eu hein!!!
Cena 3 - O auge
Outro episódio, olhei pra máquina bonita de café do meu curso de espanhol e pensei: “hummm, que momento propício pra se tomar um café. Ah, café puro não é bom pra quem tem estômago de frescurento. Vou tomar um café com leite então”.
Botei minha moedinha, apertei o botão e fiquei esperando….sete séculos depois a máquina deu uma engasgada, fez um barulho horroroso, achei que o troço fosse explodir na minha cara. Uma fila gigante de duas pessoas já existia atrás de mim, de tamanha demora.
O café com leite foi servido e lá fui eu retirar o esquentador matinal, sem pensar em nada e sem perceber….Lá fui eu soltar a minha esquisitice positivista: OBRIGADA!
Ouvi meia dúzia de risinhos e logo uma voz anasalada de hisp ano-hablante disse algo tipo: “jejejejejeje Mira, mira, Jimenez, la chica habla con las máquinas”
Uma outra persona de voz de nariz respondeu: “- Ah normal!!! Meu concunhado manda a máquina de tickets dos shoppings se fud&¨%&¨%$&¨%&, assim que a gravação começa a dar as instruções Ou então, ele convida a mocinha da gravação pra algum programa caliente…”
Então, a primeira pessoa de voz de nariz entupido finalizou: “Ela deve viver num mundo paralelo ou ser aquele tipo de pessoa macrobiótica que dá oi pra plantas e bom dia pros animais e só come seres vivos (plantas), e odeia comida normal”.
(Deixa eu só abrir um parênteses rápido: aliás, por que todo espanhol ou qualquer ser espanholado daqui das três américas fala com o nariz e não com a boca? Reparem só… Principalmente aqueles que vêm de Madrid. Bota nariz hablante nisso. Minha professora de telejornalismo ficaria louca se viajasse pra Espanha. Gastaria todo seu rico dinheirinho distribuindo cartões com indicação de fonoaudióloga. Ela manda todo mundo fazer fono ou ficar lendo jornal em voz alta e com uma caneta enfiada na boca, tudo pra melhorar a dicção e o tempo de respiração.
É…não gostei dos comentários da península ibérica ali não. Tenho que rever minha metodologia da gratidão. Acho que o conceito é bom, talvez o formato necessite de ajuste.
Bom, a moral da história é…. seja positivo, mas não tãoooooooooooo positivo a ponto dos outros notarem que você acha que é bom demais ser positivo. A vida tá aí com seus altos e baixos e pronta pra ser agradecida, mas ninguém precisa ficar sabendo que você é a coisa mais grata da galáxia (ou pelo menos tenta ser).
Afinal, você não quer que sua sanidade seja invalidada, não é?! Então, discrição é alma do negócio. Nem todo mundo vai ter a sensibilidade pra perceber que você só quer levar as coisas numa nice e só quer espantar intempéries bobas.
MUITO Obrigada, Gracias, Thank you, Merci Beaucoup, Danke Schön, Dank U wel (holandês), Faleminderit (albanês), Moitas grazas (galego), Большое спасибо (russo) pra quem me lê e pra quem não lê também!!!
E obrigada Yahoo Babelfish!
